Encontro entre a Psicanálise e a Educação

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A Psicanálise, como Freud a concebeu e depois foi desenvolvida e aprofundada por seus contemporâneos e sucessores, é sempre um debruçar-se sobre o inconsciente – essa instância psíquica, feita de recalques, daquilo que foi posto para debaixo do tapete, geralmente traumas, impulsos e desejos não permitidos, vivências às vezes não verbalizadas na infância… A terapia psicanalítica é uma sondagem desse inconsciente, interpretando suas manifestações – que aparecem em forma de sonhos, atos falhos e, claro, sintomas psíquicos e físicos, que deixam entrever as sombras guardadas. Quando o o analisado, apoiado pelo terapeuta, consegue trazer ao consciente esses nós e desatá-los através da fala, promove-se um alívio psíquico e, quem sabe, a cura dos sintomas em questão.

Entretanto, outras teorias e abordagens das instâncias psíquicas do ser humano podem complementar ou ir além do que a Psicanálise capta. Por exemplo, Viktor Frankl, o criador da Logoterapia, faz referência a um “Deus inconsciente”- ou seja uma dimensão espiritual do inconsciente, que Freud não havia aceito, em seu positivismo materialista do virar do século XX. Esse postulado de Frankl está em consonância com muitos filósofos e educadores clássicos, (desde Sócrates e Platão), que consideraram que o ser humano tem uma divindade intrínseca a ser despertada. Assim, por trás das sombras recalcadas de Freud, haveria uma luz a ser acordada.

Pestalozzi identifica três instâncias do ser, que estão presentes ao mesmo tempo em cada pessoa humana, mas também são fases do desenvolvimento histórico da humanidade e do desenvolvimento psicológico da infância: o estado natural, o estado social e o estado moral. O estado natural ou o ser humano, enquanto ser natural, é o portador de instintos básicos, vitais – que são bastante semelhantes às pulsões de Freud. Esse estado natural é inato, nos é dado. Por ele, somos obra da natureza. Numa concepção evolucionista, é a herança animal em nós. Mas para vivermos em sociedade, precisamos de algum tipo de controle desse ser natural, cujos instintos em completa liberdade inviabilizariam qualquer convivência social. Assim, entramos no estado social, no qual temos regras (uma espécie de moralidade heterônoma) para conter esse ser natural. Estabelece-se o conflito entre o que nosso ser natural quer e o que o nosso ser social pode permitir. Seria, na teoria de Freud, a luta entre o Id, onde estão as pulsões básicas e o Superego (porque para Freud, o Superego é a moral social internalizada). Em Freud, há a figura do Ego para negociar ou intermediar os conflitos entre o desejo do Id e o ideal moral do Superego. Trata-se sempre de um arranjo, de uma acomodação, porque o desejo profundo do Id não pode nunca ser completamente satisfeito. Disso resulta que somos eternamente neuróticos, tendo sempre que conciliar aquilo que realmente somos para Freud – nossas pulsões básicas – com aquilo que idealizamos ser, nosso Superego.

Para Pestalozzi, entretanto, a terceira estância não é um mediador entre o ser natural e o ser social, mas algo que transcende a ambos, permitindo uma solução definitiva do conflito e não uma negociação frágil, sempre aberta à neurose: porque, para ele, somos também seres morais. Assim, a moralidade não se constitui apenas de conceitos sociais internalizados, radicados no ser social, mas de princípios imanentes em nossa consciência espiritual. Quando realizamos o parto maiêutico dessa divindade da alma, lembrando de Sócrates, estamos no plano da liberdade e da transcendência – então, como diz Pestalozzi, somos obra de nós mesmos. A diferença, pois, fundamental, entre a teoria de Freud e a de Pestalozzi, é que para um, no fundo, não passamos de seres desejantes, com nossos impulsos, tentando nos adaptar a ideais de moralidade, criadas pela cultura; para o outro, somos divindade em potencial, desenvolvendo-se justamente através dos atritos entre nossos instintos primitivos e as regras sociais. Mas para Pestalozzi, apenas quando dermos à luz essa divindade intrínseca, será possível uma autoconstrução consciente e emancipada.

Para despertar essa divindade interior do ser humano – que é sempre um processo educativo – Sócrates apontava o diálogo como método principal. Para acessar o inconsciente Freud propõe a fala terapêutica, com associação livre. Pestalozzi e outros educadores, além da palavra, indicam estímulos positivos, que induzam a certas emoções ou levem a certos raciocínios, que toquem a alma e a façam reconhecer sua luz interna.

Assim, proponho um processo terapêutico que seja um encontro amigável entre Freud, Frankl e os clássicos da Educação. Por isso, ao mesmo tempo, que está em andamento uma análise, buscando elementos recalcados no inconsciente, para que as dores psíquicas sejam trabalhadas, entra em cena uma nova prática, a Terapia Pedagógica.

Essa Terapia é feita por estímulos positivos, pedagógicos, constituindo-se de conversas socráticas, indicações de leitura, filmes, artes, cultivo de práticas espirituais (de acordo com a espiritualidade do paciente)